Em Florianópolis, a umidade não é apenas uma característica do clima. Ela é uma condicionante de projeto que precisa ser considerada desde as primeiras decisões arquitetônicas.
A proximidade com o oceano, o regime de chuvas e as características do clima subtropical úmido fazem com que a cidade apresente elevados níveis de umidade relativa ao longo do ano. Estudos sobre o clima local apontam uma umidade relativa média anual de aproximadamente 80,4%, com valores que podem chegar próximos de 98%. A precipitação também ocorre durante todo o ano, sem uma estação seca bem definida.
Isso significa que projetar em Florianópolis exige pensar não apenas em estética e distribuição dos ambientes, mas também em como a edificação vai lidar com a água, o vapor e a ventilação ao longo de sua vida útil.
Umidade externa e umidade dentro da edificação
É importante diferenciar os diferentes mecanismos que podem levar à presença de umidade em uma construção.
A água pode ingressar pela chuva, pelo solo, por falhas na impermeabilização ou por pontos vulneráveis da envoltória. Já a umidade interna também pode estar relacionada ao uso dos ambientes, como banho, cozimento e secagem de roupas.
Existe ainda um terceiro fenômeno: a condensação.
Quando uma superfície apresenta temperatura suficientemente baixa em relação ao ar úmido, o vapor de água pode condensar sobre ela. É o que frequentemente percebemos como aquela superfície "suando" em determinadas condições.
Por isso, uma parede pode apresentar manchas de umidade sem necessariamente existir uma infiltração convencional.
O ponto de orvalho importa
Tecnicamente, uma das variáveis importantes para compreender a condensação é o ponto de orvalho.
Imagine um ambiente com ar quente e úmido. Se uma superfície estiver mais fria que a temperatura de ponto de orvalho daquele ar, o vapor começa a se transformar em água líquida sobre a superfície.
Esse fenômeno pode ocorrer em paredes, esquadrias, tubulações e outros elementos construtivos.
Em Florianópolis, onde a umidade relativa é elevada durante boa parte do ano, essa questão merece atenção especial na especificação da envoltória e na definição das soluções construtivas.
A arquitetura precisa trabalhar a favor do clima
A resposta para a umidade não está simplesmente em "impermeabilizar tudo".
Uma boa estratégia envolve um conjunto de decisões:
- implantação e orientação da edificação;
- aproveitamento da ventilação natural;
- dimensionamento e posicionamento das aberturas;
- proteção das fachadas contra chuva;
- beirais e elementos de proteção solar e pluvial;
- escolha adequada dos materiais;
- detalhamento de esquadrias e encontros entre elementos;
- impermeabilização de áreas sujeitas à água;
- afastamento e proteção das paredes em relação ao solo;
- drenagem adequada do terreno;
- especificação correta de revestimentos e pinturas;
- tratamento de pontos críticos da cobertura e da fachada.
A própria ABNT NBR 15575 estabelece que a exposição à água da chuva, à umidade proveniente do solo e à umidade decorrente do uso da edificação deve ser considerada no projeto, justamente porque a umidade pode acelerar mecanismos de deterioração e comprometer as condições de habitabilidade e higiene.
Ventilação natural como estratégia de projeto
Em Florianópolis, a ventilação também pode ser uma importante aliada.
A renovação do ar ajuda a remover vapor produzido internamente e pode contribuir para reduzir a permanência de umidade em determinados ambientes.
Isso precisa ser pensado desde o projeto: não basta simplesmente aumentar o número de janelas. É necessário considerar posição, orientação, dimensões e possibilidade de ventilação cruzada.
Ambientes como banheiros, cozinhas, lavanderias e áreas com pouca incidência solar merecem atenção especial.
Materiais e detalhes fazem diferença
A escolha dos materiais também precisa considerar o ambiente em que a edificação está inserida.
Fachadas expostas à chuva e à maresia, por exemplo, podem exigir especificações diferentes de materiais, revestimentos, fixações e sistemas de proteção.
Pequenos detalhes construtivos também podem determinar o desempenho de uma edificação. Pingadeiras, rufos, peitoris, encontros de cobertura, juntas, arremates de esquadrias e sistemas de impermeabilização são exemplos de elementos que precisam ser corretamente detalhados.
Muitos problemas que aparecem posteriormente como "infiltração" ou "mofo" começam, na realidade, em uma decisão de projeto ou em um detalhe construtivo inadequado.
Umidade não é apenas uma questão estética
Manchas, bolor e pintura descascando são os sinais mais visíveis, mas o problema pode ser muito mais amplo.
A presença persistente de umidade pode contribuir para a deterioração de materiais e acabamentos e prejudicar as condições de uso dos ambientes. Em períodos chuvosos, problemas relacionados à umidade podem se tornar ainda mais perceptíveis, especialmente quando existem falhas de estanqueidade ou pouca ventilação.
Por isso, quando desenvolvo um projeto arquitetônico em Florianópolis, a umidade é tratada como uma variável de desempenho da edificação, e não como um problema a ser resolvido somente depois que aparece.
Projetar para Florianópolis é projetar para o clima local
Cada terreno apresenta suas próprias condições: orientação solar, topografia, vegetação, exposição aos ventos, proximidade do mar, características do solo e relação com as edificações vizinhas.
Por isso, acredito que uma boa arquitetura precisa partir da leitura dessas condicionantes.
Em Florianópolis, compreender a umidade significa projetar pensando em durabilidade, conforto, salubridade e manutenção.
A arquitetura não deve simplesmente proteger o usuário do clima. Ela deve dialogar com ele.
E é justamente nessa etapa, antes que o problema apareça, que as decisões de projeto podem fazer a maior diferença.
